Viagens & Eventos Cicloturismo Pedalando de Fóz do Iguaçú até Ushuaia (Fim do Mundo)

O projeto


 A idéia do Projeto Ecociclo foi mostrar e conscientizar pessoas de que é possível fazer uma grande viagem de ecoturismo a lugares extremamente remotos do planeta com atitudes de mínimo impacto ambiental.

Com destino a Ushuaia na Patagônia, cidade considerada o Fim do Mundo por ser a última do hemisfério sul, parti de Fóz do Iguaçú e pedalei 4236km durante dois meses. Passei pelo Paraguai, Argentina, Uruguai, rios, desertos, áreas montanhosas, pampas argentinos, glaciares, icebergs e a maravilhosa Cordilheira dos Andes.

Determinação, paciência e ousadia foram fundamentais para realizar o projeto.

Centenas de cidades foram visitadas durante o percurso, dentre elas as mais conhecidas são: Foz do Iguaçú, Punta del Este, Montevidéo, Buenos Aires, Bariloche e por fim Ushuaia.

Bagagem


Entre várias dificuldades da viagem, a bagagem foi talvez a mais difícil delas.

Decidir o que levar não foi fácil, pois devido ao peso e volume da bagagem não seria possível levar tudo o que bem entender, consecutivamente aparece a tarefa de conciliar a bagagem necessária com o baixo peso e volume.

A bicicleta foi cuidadosamente adaptada com cinco mochilas (alforjes), suficientes para levar material de camping, higiene pessoal, mapas, roupas básicas, roupas especiais, comida para alguns dias, primeiros socorros, equipamento fotográfico, ferramentas e peças de reposição.

Fotos

Clique aqui para ver as fotos da viagem.

 

Relato - Índice

 

Introdução/Patagônia de bike?

Saindo de casa – Dezembro de 2006

Primeiras notícias

Terreno novo

Ano novo

Conhecendo o Uruguai

Ir pelo Lago? Ta doido?

Montevidéu

Buenos Aires

Pedala Robinho

Bariloche

Cordilheira dos Andes

Deserto? Humm...

Frio

Nunca chega?

 


 

 

Relato da Viagem

Patagônia de bike?


    Até que enfim eu iria sair para a tão falada viagem. Demorei um ano e meio para fazer todo o “teórico” planejamento, em alguns momentos cheguei a duvidar se eu realmente ia, mas com muita determinação, fiz uma das melhores coisas da minha vida.
    Esse relato eu escrevi durante a viagem, muita coisa deve estar errada, mas, acredito que vale a pena ler.


                                Ronald Moretto
                    30/04/2007

 

Saindo de casa – Dezembro de 2006



    Mudei alguns planos e ao invés de sair de Presidente Prudente, vou começar a pedalar em Fóz do Iguaçu, como vou sozinho até Buenos Aires e por a estrada não ter muitos atrativos de Pres. Prudente até Fóz, decidi ir de ônibus até lá. Vou economizar apenas 500km dos teóricos 6000km (agora 5500km).
    Já está tudo preparado, equipamentos, bicicleta nova, rotas, etc... No primeiro mês vou pedalar na Argentina, entrar novamente no Brasil e atravessar o Uruguai literalmente de norte a sul, dia 16 de Janeiro em Buenos Aires, vou me encontrar com o James (Canadá) que vai pedalar comigo provavelmente até Bariloche.
    Esse primeiro mês vou pegar leve, pedalar devagar e menos para adaptar melhor o organismo, pretendo fazer uma média de 70km por dia e cinco ou quatro dias por semana, depois de Buenos Aires pretendo aumentar essa média.

Primeiras notícias


    Bom, em primeiro lugar, esse teclado louco argentino não tem til e aspas, a única coisa com til aqui é uma tecla com ele no n... a famosa “ñ”.
    Cheguei em Fóz dia 21, deixei a bike em um guarda volumes perto da rodoviária e fui no Paraguai comprar um cartão de memória para minha câmera e umas pilhas, fiquei a tarde toda lá, voltei para a  rodoviária para pegar a bicicleta e fui para o albergue. O albergue de Fóz é super legal como a maioria dos albergues brasileiros, cheio de estrangeiros e o atendimento é incrível. No dia seguinte fui para as cataratas, já conhecia, fiz algumas fotos básicas e depois fui para o Parque dos Pássaros, eu não imaginava que era tao grande, quem olha de fora, vê apenas uma casinha, e a impressão que eu tive é que era somente isso, valeu a pena, parece um zoológico, com informações sobre sobre os pássaros e animais que tem lá, até peguei uma arara no braco.
    Dia 23 eu saí de Fóz,  atravessei a fronteira para a Argentina e comecei a pedalar, a estrada era quase uma serra, só tinha subidas e descidas, nada plano. No meio do caminho quando parei para descansar e comer, parou uma Land Rover de uns alemães e portugueses que estavam indo atravessar o deserto de Atacama, eram cicloturistas também, trocamos contatos e seguimos nossas viagens, que apesar de destinos e transportes diferentes, tinham o mesmo ideal.
    Apesar de ser o primeiro dia na Argentina, não gostei muito da província de Missiones, além de não ter nada plano, não tinha nada em lugar nenhum, onde no mapa marcava uma cidade, tinha no máximo umas dez casas (Wanda por exemplo).
    Cheguei até uma pequena (muito pequena)  cidade chamada Puerto Esperanza, na estrada eu lembrei que  não  troquei dinheiro e não tinha um peso argentino na carteira, estava esperando encontrar algum hotel ou qualquer lugar que eu pudesse pagar com cartão de crédito, mas não achei. Por sorte em Esperanza tinha um terminal automático que era ligado a rede 24 horas, e assim consegui ficar em um hotelzinho lá, a noite comi uma comida local chamada ¨minuta¨, parece uma maionese de batatas e cenoura com o maior bife a milanesa que eu comi em toda minha vida.
    Faltava apenas um dia para o natal, segundo dia na estrada peguei uma chuva que me deu medo, isso porque amo temporais, achei na estrada uma guarita de ônibus, parei e esperei a chuva ¨diminuir¨, sozinho, na estrada e na chuva, sem o som, bateu a solidão, senti saudade da família e amigos, mas sei que tenho que me acostumar.
    Debaixo de chuva e com vento contra cheguei em Montecarlo depois de 76km, não é muito, mas naquelas condições não foi nada fácil. Véspera de natal, cidade quase deserta, apenas o hotel onde eu estava, uma padaria e uma loja estavam abertos,  tive que comprar uma pizza semi pronta e pedir para a dona do hotel fazer.
    Acordei dia 25 sentindo dor no quadríceps, só depois de dormir para sentir, mas com certeza machuquei pedalando, e também com meu esternocleidomastóideo doendo (torcicolo) provavelmente acho que dormi de mal jeito. Resolvi não pedalar, mas o hotel onde eu estava não era dos mais baratos e eu não pretendo gastar muito nessa viagem, então decidi sair dali de ônibus para a próxima cidade onde tinha um albergue, assim eu poderia ficar parado mais tempo.
    Cheguei no albergue de Posadas as 15hs, vi duas pessoas usando havaianas e pensei em perguntar se eram brasileiros, lembrei da propaganda na hora, mas perguntei e eles eram. Depois na piscina do albergue conheci a família deles, eram de SC e estavam viajando por aqui, fui jantar com eles a noite, o albergue fica um pouco longe do centro e acabei ganhando uma carona, pessoas super simpáticas que espero manter contato.
    Hoje (26/12) levantei cedo e fui lavar minha roupa, que neste momento está super cheirosa, só tenho que comprar mais sabonete agora.
    Amanha sigo viagem, vou continuar na argentina até Buenos Aires, a rota inicial de atravessar o Uruguai tive que mudar por conselhos de argentinos e uruguaios que encontrei por aqui, vou conhecer alguns lugares do Uruguai, mas não atravessá-lo como planejado inicialmente.
Imprevistos...


    No planejamento da viagem eu calculei uns dias a mais pois poderia acontecer alguns imprevistos, que obviamente eu não sabia quais.
    Bom, ontem (27/12) saí  de Posadas umas 10:00, demorei muito para reorganizar as mochilas, uma das tarefas que menos gosto da minha viagem, queria só apertar um botão e pronto, ou melhor, deixar tudo bagunçado como faco em casa.
    O terreno começou a ficar mais plano, mas ainda tinham muitas subidas e descidas. Dessa vez não teve chuva, o céu estava sem nenhuma nuvem, parei para comer em um restaurante e continuei a viagem debaixo de um sol que eu nunca vi. Resolvi pegar o termômetro, deixei ele no sol mesmo pois eu não tinha outra opção, ficou em cima da bolsa do guidão, marcava apenas 48ºC, a sensação térmica era de 44ºC, na sombra com muito vento ele descia o ponteiro para 39ºC. Não aguentei pedalar muito pelo calor, as 15:00hs achei uma hospedagem em um bairro pequeno e ali mesmo fiquei, liguei para casa e fui descansar. Para minha felicidade quando entrei na casa da dona da hospedagem vi um piano, perguntei que tocava e ela chamou o filho dela, quando toquei um acorde no piano, percebi que estava terrivelmente desafinado, que pena, mesmo assim ele foi tocar, foi impressionante ver tanta dedicação com tao pouco estímulo, no meio do nada, em um lugar quase inóspito, um piano super desafinado e o garoto tocava muito bem.
    No outro dia segui meu destino, dessa vez 8:00hs eu já estava na estrada, mas o sol parecia estar mais forte e dessa vez quase eu não achava árvores a beira da estrada para me aproveitar da sombra, quando eu via de longe uma já sabia que ia parar, a cada parada eu passava protetor solar nas partes que estavam descobertas pelas roupas (parte dos pés e mãos), ao meio dia achei uma seringueira, essas árvores gigantes com folhas grandes que fazem sombra pedindo para gente ficar um pouco lá, tinha até um lugar onde pude deitar e descansar. Comi, e depois de um cochilo tive que seguir viagem, eu tinha pedalado apenas 45km em 4 horas contando as paradas, fui com a mão na mochila onde usualmente deixo o protetor solar, levei um susto quando não o  vi lá. Procurei em outros lugares e me dei conta que na ultima parada eu esqueci ele em cima da mochila, isto não estava nos meus planos. Tive que tomar a decisão de voltar uns 5km para encontrar o protetor ou continuar sem ele, queria eu que fosse apenas 5 metros, pois em 5km eu perderia 10km mais o tempo que não pedalei os quilômetros a frente, seria como se eu tivesse perdido 20km da minha viagem, que desastre, pensei em não voltar, mas o sol estava de alucinar e como minha pele não é nada resistente ao sol decidi voltar. Depois de 4 km voltando senti o cheiro do protetor solar, isso não era um bom sinal, e um pouco a frente vi a embalagem estourada sem nada dentro. Que tristeza, era de 50 FPS e não sei se eu encontraria protetor aqui nessa região, perdi meu protetor, meu salvador e também perdi 20km de estrada.
    As 14:30hs cheguei em Gobernador Virasoro, achei um hotel e restaurante chamado El Brasilero e ali mesmo parei, pedi um quarto e depois de um banho fui almoçar. Foi o hotel mais limpo e cheiroso que encontrei na Argentina, tudo feito com muito capricho, dormi um pouco, sai do hotel e achei um protetor de 65fps em uma farmácia e agora aqui estou escrevendo essa história.
    Bom, prometo que nunca mais vou esquecer o protetor em lugar nenhum, e ainda não decidi como vou continuar com esse sol, ainda tenho uns 300km de muito calor pela frente, e um trecho de 100km sem nada no caminho que ainda não decidi também como vou fazer. Aqui nessa região o povo trabalha das 8:00 as 12:00 hs e depois das 16:00 as 21:00, nada fica aberto das 12 as 16hs devido o calor.
    Pelo menos a paisagem está mudando, logo estarei nos pampas argentinos.

Terreno novo

    Ufa!! Até que enfim paisagens novas, já estou no começo dos pampas, é uma planície interminável, o céu parece ser maior e agora sim consigo perceber melhor o tamanho da Terra, é gigante, só mesmo paciência para me levar até o fim do continente.
    Ontem saí de Virasoro bem cedo, meu objetivo era chegar e ficar em Santo Tomé na Argentina mesmo, fica uns 10km da fronteira com o Brasil (São Borja - RS). A temperatura continua muito quente, não estou conseguindo pedalar o que realmente posso, mas fiquem tranquilos pois não pretendo exagerar nem um pouco. Na estrada, depois de horas parando em sombras de menos de dois metros, achei uma entrada de uma fazenda com muitas árvores e sem dúvida parei ali para descansar, comer e tirar umas fotos. Continuei meu caminho e as 15:30hs cheguei no trevo de Santo Tomé, tinha um hotel bom uns 300m depois do trevo, fui lá mas não tinha um lugar, todos quartos ocupados, então tive que ir ao centro da grandiosa cidade de uns 6000 habitantes procurar um hotel, por indicações de moradores dali achei os 4 hotéis da cidade, um deles era realmente muito bom e grande, mas para aumentar meu cansaço estavam todos ocupados. Eu estava exausto, fiquei até as 17:30hs para sair da cidade depois de tanto procurar, não tinha sentido tanto cansaço assim ainda, resolvi nem descer da bicicleta com medo de não conseguir montar novamente. Fui em direção a São Borja no Brasil, eu poderia ate acampar em uns sítios por ali, mas não sem a certeza de um banho, e no Brasil eu ia descansar um pouco do espanhol. Passei a fronteira, e depois de alguns quilômetros cheguei ao trevo de São Borja, achei um telefone publico e resolvi ligar para minha mãe. Quando nosso corpo está exausto, nosso humor muda, eu estava com saudade de tudo e de todos, só pensava na minha família, mãe, irmãos, irmas, minha sobrinha e meu sobrinho, mas depois de falar com minha mãe e sentar um pouco na sarjeta me senti melhor. Encontrei um casal caminhando e perguntei (enfim em português, que alivio) onde tinha um hotel, e poucos minutos depois eu estava tomando o banho frio que tanto esperava. Liguei novamente para minha mãe, pois eu a tinha deixado preocupada, e tinha que avisar que estava tudo bem. Fui para um rodizio de pizza e no outro dia eu estava pronto.
    Acordei cedo hoje, sai de São Borja e na estrada eu estava me sentindo fraco, acho que não me recuperei direito, mas infelizmente a próxima cidade seria uns 95km dali. Quando parei na aduana para sair do Brasil novamente encontrei um grupo de pessoas que estavam viajando de moto, conversamos bastante, me deram algumas dicas do sul da Argentina, pois eles já tinham ido lá, e depois seguimos nossos destinos.
    Pedalar exatamente 47km no sol, uma estrada horrível, sem acostamento e com muito movimento, pois os argentinos nessa época do ano descem para o litoral sul do Brasil. Depois disso achei uma sombra e parei para descansar, um caminhão parou também, o motorista (como todas pessoas que encontro na estrada) me perguntou onde eu ia, de onde vinha, etc... Depois de uma conversa ele perguntou se eu não queria carona, aceitei sem exitar, e foi a melhor decisão, o resto da estrada era pior ainda, alem de economizar uns 150km, ele também me ofereceu hospedagem em sua casa. E aqui estou, já tomei meu banho, conheci a família dele e descansei a tarde toda.
    Estou mais motivado, estou entendendo melhor a cultura e a politica do país, além da paisagem que está cada vez melhor.
 

Ano novo


    Esse relato vai ser grande, seis dias sem internet, sem nada por perto, mas muita história para contar. Esses últimos dias me deparei com emoções muito fortes, foram dias muito emocionalmente intensos para mim, tanto emoções boas como felicidade e outras ruins como saudade e outras, mas foram todas muito, muito fortes.
Acordei dia 31 pensando em minha mãe, pois era aniversário dela, fui correndo ao telefone público ligar para casa, falei com ela e assim que desliguei o telefone chorei, que saudade. Voltei para casa onde eu estava pensando em toda família maravilhosa que tenho, minhas irmas, irmãos, sobrinho, sobrinha e amigos que amo muito. Isso é bom, pois estou crescendo muito, redefinindo valores, etc.
    A família que me hospedou é simplesmente incrível, pessoas que apesar de terem boa situação econômica, são extremamente simples. Passei a virada de ano com eles, em uma reunião de toda a família, tinha gente de todos os lados da Argentina, todos muito felizes e cheios de alegria. Bagunçamos muito, cantamos, dançaram (yo no bailo), e conversamos muito sobre o Brasil e a Argentina, sobre cultura e politica, principalmente sobre mpb.
    Passamos a noite toda, quando o dia estava amanhecendo eles resolveram ir para a Costanera, é uma rua a beira do rio Uruguay onde as pessoas em dias de festa vão assistir o sol nascer. Eu estava muito feliz, não só pelas festas e por ver o sol nascer, mas pela intensidade da minha vida neste momento, pela viagem, pela realização e pela superação.
Enquanto eu estava na casa deles, pensava o que eu ia fazer com a viagem, pois o calor estava insuportável, 42ºC eu não consigo nem ficar sentado no sol quanto menos pedalar carregando 50k de bagagem. Mas ao mesmo tempo eu não queria continuar de carro ou ônibus, pois a idéia da viagem é pedalar, e alguns momentos sinto uma responsabilidade com isso, preso talvez a expectativas do projeto, não só minha, mas de todos que apóiam e acompanham. Mas, lá na costaneira enquanto o sol nascia eu senti uma liberdade tao intensa que me fez perceber o quanto somos presos a tantas coisas, naquele momento me libertei de quase tudo e decidi mudar o trajeto da viagem.
    Eu estava em Passo de los Libres, no nordeste da Argentina, fronteira com Uruguaiana no Rio Grande do Sul, resolvi cruzar o RS de ônibus sentido litoral, descer de Pelotas ao Chuí e atravessar o Uruguai pelo litoral. Assim eu não deixaria de pedalar, me livraria do calor infernal, e ia conhecer um trecho que ouvi dizer que era muito bom para pedalar.
Assim eu fiz, atravessei a fronteira de bicicleta, cheguei na rodoviária as 19:40hs e perguntei se tinha ônibus para o litoral, o cara me disse que tinha ônibus as 20:00hs, mas eu estava sem dinheiro suficiente e tinha que ir a um caixa eletrônico sacar. Nesse tempo de vinte minutos, fui de bicicleta até o caixa eletrônico que ficava mais ou menos umas 10 quadras da rodoviária, liguei para minha mãe e ainda comprei algumas coisas para comer e beber durante a viagem.
    Cheguei em Pelotas as 5:30hs, me informei onde eram as estradas, parei em uma padaria comer e segui viagem. Primeira vez nesta viagem que na estrada vi o sol nascer, a rodovia é bonita, extremamente plana, e eu tinha acabado de mudar de rota, a sensação de liberdade era muito intensa, eu estava muito feliz.
Na estrada me informei onde eu poderia parar para dormir, mas descobri que até o Chuí não tinha nada na estrada, eram 270km sem hospedagem.     Depois de 90km achei um lugar onde tinha uma pequena lanchonete, um posto policial e menos de 1km fora da estrada estava a Lagoa Mirim, que apesar de ser mirim tem mais de 100km de extensão, é linda e ali mesmo decidi acampar, perto da lagoa encontrei um grupo de ciclistas, estavam vindo naquele dia de Rio Grande e iriam seguir o mesmo caminho que eu.
    Dia 03 de Dezembro seguimos viagem, saímos cedo, passamos pela Reserva Ecológica do Taim, vi muitos animais lá, perdi as contas de quantas capivaras, em um momento vi elas andando em fila indiana, era um grupo de mais de 20 capivaras, pedalei nesse dia 145km, fiquei em um hotel em Santa Vitória dos Palmares e seguimos viagem até Chuí. No Chuí fomos conhecer os pontos turísticos, inclusive o farol que fica no ponto mais extremo do Brasil. Seguimos viagem uma pouco para frente de Chuí, mas já no Uruguai, ficamos em um camping em um povoado chamado La Coronilla ( http://www.lacoronilla.com.uy/ ). Hoje eles seguiram viagem, mas eu decidi ficar por aqui, fui conhecer a praia, lavar minhas roupas e descansar. Espero sempre achar internet por aqui, pois não gosto muito de ficar muito tempo na frente do PC, e quando, se não escrevo a cada dois dias, fico muito tempo para descarregar tudo, sem contar que posso deixar passar alguma coisa.
 

Conhecendo o Uruguai


    Assim que saí da internet e voltei ao camping, encontrei três cicloturistas na estrada, estavam indo para Montevideu, mas eu já estava acampado e só iria seguir viagem no dia seguinte, mas quem sabe talvez a gente se encontrasse pelo caminho.
    Acordei no outro dia, guardei minhas coisas e sai com destino a Valizas, e conhecer no caminho a Fortaleza de Sta Tereza, e foi isso que fiz. Chegando em Valizas, fui procurar lugar para ficar no albergue, pois a cidade estava cheia de turistas, não tinha lugar no albergue, conheci la duas uruguaias que também estavam procurando lugar, e então saímos juntos a procurar e ficamos em um camping. Juntamos nossas comidas e fizemos um spaghetti muito bom com vinho uruguaio. Dia seguinte fomos conhecer Cabo Polonio, um lugar maravilhoso, penso que talvez a melhor praia do Uruguai, para se chegar la somente com veiculo 4x4 ou caminhando pela praia uns 10km, então decidimos ir de 4x4 e voltar andando. Cabo Polonio e uma pequena vila de pescadores que agora esta sendo invadida pelo turismo, cercada de dunas de areia, mar, rochas e muitos lobos marinhos. Caminhando pela praia sempre se vê um lobo marinho morto, pois há muito la. Quando voltamos para "casa", a senhora que cuida do camping me disse que uns ciclistas brasileiros passaram por la, e depois voltariam para gente conversar. Tomei um banho, pois a caminhada de 10km na areia foi muito mais cansativa que meus 900km pedalados, e pouco depois chegaram os ciclistas, que eram os mesmos que encontrei em La Coronilla, combinamos de seguir viagem juntos.
    Pedalamos poucos quilômetros e a bicicleta de um deles (Joca) começou a dar problema no cubo traseiro. Tentamos arrumar, mas não teve jeito e ele teve que conseguir uma carona ate a próxima cidade. No começo da tarde chegamos em La Pedrera, o Joca já tinha encontrado um lugar para arrumar a bike, mas por fim na cidade não tinha pecas e ele teve que ir a outra cidade buscar, eles decidiram ficar mais um dia em La Pedrera para resolver o problema da bike, e como para mim a companhia era boa, resolvi ficar também, assim pude conhecer melhor o lugar, curti a praia e descansar. No outro dia fomos conhecer a cidade vizinha, La Paloma, pedalamos um total de 40km, foi bom, como um treino leve, pois o destino do dia seguinte não estava totalmente decidido, tínhamos duas opções de rodovias, uma pelo litoral, mas com duas represas no caminho e que segundo os mapas e quase todos que perguntava-mos, não seria possível atravessar a represa, apenas uma mulher disse que "achava" ser possível, pela outra rodovia o caminho era mais longo e me parece que havia serras. Então a decisão foi descansar bem, acordar cedo e decidir no dia. A ideia era pedalar uns 70km ate uma cidade chamada José Ignácio, 30km antes de Punta del Este.
E foi isso, o que aconteceu no outro dia vou escrever em outra parte, pois foi o melhor trecho da primeira parte da viagem, e merece um longo texto.

Ir pelo Lago? Ta doido?


    Eu e os outros cicloturistas (Joca, Curiri e Salame) curtimos muito La Pedrera, o camping era bom, e quando se cozinha para mais de uma pessoa, o rango sempre fica melhor. Depois de uma janta muito boa e uma noite de descanso, seguimos nossa viagem, sem destino certo para aquele dia, poderia ser uma aventura ou uma pedalada "cotidiana" pela rodovia.     Depois de 14km do camping chegamos no trevo que iria decidir nosso dia, paramos para nos informar melhor com a policia rodoviária, e eles garantiram sem dúvida alguma que se a gente fosse pelo lago, iriamos apenas conhecer e voltar, pois não havia como passar. Depois de alguns minutos pensando, discutindo e tentando tirar mais informações dos guardas, o Salame deu a idéia de votar, e em seguida votou em ir pelo lago, o resultado foi unanime. Decidimos pegar a estrada de terra e arriscar perder uns 10km ou mais. A estrada apesar de ser de terra batida, era muito boa para pedalar, e quanto mais a gente se aproximava do lago, mais bonita era a paisagem, de longe já avistávamos o mar de um lado e o lago do outro, pouco depois nos deparamos com uma estrada de areia, na realidade acho que nem era bem uma estrada, era um caminho onde só passava veículos 4x4, empurramos as bicicletas pelas dunas de areia por um bom trecho, para mim estava sendo uma tortura apesar da paisagem, para eles acredito que estava um pouco mais fácil, pois já tinham passado por isso antes. Encontramos um morador que nos disse que era possível atravessar o lago sim, havia uma duna de areia entre o lago e o mar, saímos das dunas e continuamos beirando o lago, passando ao redor das casas e das pessoas que moravam ali, todos olhavam com muita curiosidade, talvez pensando o que esses doidos estavam fazendo ali de bicicleta. Depois de alguns quilômetros avistamos o canal de areia por onde pretendíamos atravessar, tivemos que empurrar as bicicletas na areia novamente, o dia já tinha se transformado em uma aventura e sem dúvida alguma nossa decisão foi perfeita, o esforco estava valendo a pena, o visual era incrível, pássaros voando sobre o lago, flamingos parados, as casinhas e as pessoas simples que moravam ali, tudo isso formava um lugar impressionante, pouco conhecido, e menos ainda explorado.
    Tudo estava maravilhoso até que chegamos a um ponto que teríamos que levar as bicicletas no braco e atravessar a represa caminhando. O Salame sempre estava na frente, e foi o primeiro a atravessar assim, a minha bicicleta era a mais pesada de todas, com mais mochilas, pensamos em um ajudar o outro, só o Salame tinha carregado a bicicleta sozinho, mas voltou, e carregou a minha sozinho também, pra mim foi ótimo, depois cada um carregou a sua e continuamos a empurrar as magrelas na areia, até que chegamos em uma duna em que do nosso lado direito era o mar e do esquerdo a  lagoa, um lugar impressionante, paramos ali para contemplar nosso planeta.
    Depois de mais um pouco de areia chegamos novamente a estrada que nos levaria a José Ignácio, pedalamos poucos quilômetros até achar uma sombra para descansar, todo momento falávamos sobre a decisão de atravessar a lagoa, que foi perfeita, além de economizar alguns kms, tínhamos ganhado o dia com o visual e com nossa aventura, a estrada era maravilhosa, as propriedades não tinham cercas nas divisas e os animais viviam soltos ali, até parei um pouco para chegar perto de uns cavalos soltos, eram mansos, provavelmente tinham donos, mas viviam soltos ali.
    Depois de alguns quilômetros de uma estrada maravilhosa, chegamos a segunda lagoa, dessa vez tinha uma balsa para atravessar, ali perto encontramos um minimercado, e paramos para almoçar.
Chegamos cedo em José Ignácio, não tinha lugar para acampar e estávamos pedalando muito bem, acredito que era devido a ótima janta da noite passada, tínhamos dormido bem, e estávamos super contentes com a aventura. Decidimos então continuar até Punta del Este, eram apenas mais uns 30km de asfalto, já tínhamos pedalado 60km. Chegamos em Punta a tarde, montamos nossas barracas em um camping, e fomos descansar de um dia exaustivo, mas maravilhoso.

Montevidéu

    De Punta del Este, seguimos caminho a Piriápolis, a estrada era muito boa, bom acostamento. Sem muitas surpresas chegamos no trevo de Piriápolis, a idéia era ficar na chácara de uns conhecidos do Joca, paramos um pouco para encontrar o caminho da chácara. Pedalamos uns 5km de terra, mais 5km de asfalto e lá estávamos, como faz um pouco de tempo, já não lembro quantos kms pedalamos naquele dia, mas acho que não foi muito. A chácara ficava uns 5km da cidade, fomos a cidade para mandar lavar nossas roupas, comer e curtir um pouco o mar. As roupas só ficaram prontas a noite, e fomos obrigados a pedalar de volta para a chácara no escuro, estávamos todos nos sentindo cansados pelo dia anterior, cada km pedalado parecia uma eternidade, pelo menos para mim, mas foi bom, pois depois de muito cansaço, todas as noites são bem dormidas.
    Estávamos bem perto de Montevidéu, mas não queríamos fazer em um dia, pois não seria legal chegar em Montevidéu a noite de bicicleta e procurar lugar para dormir, então no dia seguinte o Joca resolveu ficar em Piriápolis com seus amigos, eu, Salame e o Curiri, pedalamos até Salinas, uma cidadezinha que fica uns 35km antes de Montevidéu, acampamos, fomos comer um ¨refuerzo¨, que nada mais é que um lanche, a gente compra, pães, tomates, queijos, salames, etc.. e fica como almoço     A praia em Salinas, já não era mais com água do mar, ali o Rio del Plata já tomava conta da paisagem, è gigantesco, não è possível ver a outra margem do rio. A melhor hora dos nossos acampamentos era a hora da janta, nunca falta forca na hora de fazer comida, que sempre são deliciosas, sopas, macarronadas, sempre com molhos, atuns, tudo de bom.
    Estava chegando o fim da minha jornada pelo Uruguai, acordei sabendo que ia para a última cidade que eu ia conhecer naquele país maravilhoso, mas não o último dia. O Uruguai é um excelente país para quem quer viajar de bicicleta, ótimas rodovias (pelo menos no litoral) e o povo é super amistoso, hospitaleiro, não tenho palavras para descrevê-los.     Acordamos, desmontamos acampamento e fomos para a estrada, para nossa tristeza, o vento estava contra, mas tudo bem, tínhamos tempo e muita vontade de chegar.
    Chegar em Montevidéu nem foi a pior parte, atravessar a cidade foi uma jornada sem fim, o vento estava pior, e em alguns momentos vinham umas rajadas que quase faziam a bicicleta voltar.
Encontramos o albergue depois de nossa longa e infindável travessia por Montevidéu, ainda bem que não foi a noite, ótima decisão tínhamos feito.     Para ajudar, o albergue era um prédio da Ciudad Vieja (Cidade Velha) e tínhamos que subir escadas, com as bicicletas é claro. Enquanto a moca nos mostrava o albergue, subindo e descendo aquelas escadas, a gente resmungava de nossas pernas, como estávamos cansados, quebrados, etc.. foram quatro dias seguidos muito fortes, principalmente o primeiro, que atravessamos a lagoa.
    Em Montevidéu, fomos conhecer o centro, museus, e o teatro, no teatro fomos assistir uma peca de comédia, que parecia mais um drama, e que eu particularmente não gostei.
    No albergue tinha um piano, muito desafinado, mas pelo menos pude matar a saudade de tocar, meus dedos sempre foram travados no piano, agora estão piores, só espero que minha professora não fique sabendo disso.
    No outro dia o Joca apareceu em Montevidéu, na estrada estávamos duvidando que ele ia realmente chegar, quando eu vi ele no albergue, fiquei surpreso, não estava acreditando, até o momento que ele contou que veio de carona.
    Em todo esse tempo eu estava tentando convencer o Salame a pedalar comigo e com o James (que eu iria encontrar em Buenos Aires) até Bariloche, ele tinha mais um pouco de tempo, mas estava indeciso. Eu claro, tava torcendo por mais uma boa companhia, pois em tao pouco tempo já tinha feito novos e bons amigos. Enfim, chegou a hora da despedida, infelizmente o Salame decidiu voltar, o Curiri também não tinha como continuar, e o Joca ia para Buenos Aires, mas não ia levar a bicicleta.
    Senti muito na despedida, sabia que ia sentir falta dos novos amigos, mas claro, sei que uma hora ou outra a gente se encontra por aí.

Buenos Aires

    Saí do albergue em Montevidéu depois do almoço, com destino a Buenos Aires, iria atravessar o rio de barco é claro, a previsão de chegada em Buenos Aires, seria às 20:45hs. O pessoal da empresa disse que eu poderia tranquilamente levar minha bicicleta e sem custo algum. Ótimo, o barco era excelente, muito rápido, bonito, etc, etc... inclusive vi naquele dia um cometa no céu, achei estranho, pois não ouvi nada na mídia sobre um cometa nessa época, fiquei olhando por um bom tempo e claro, assim que eu estiver em Buenos Aires, iria conferir na internet se era realmente um cometa. Cheguei em Buenos Aires às 22hs, sai do barco e fui para o lugar onde entregam as bagagens buscar minha preciosa bicicleta, companheira de todos esses momentos maravilhosos, esperei até a última bagagem e nada, fui perguntar sobre minha magrela, ao pessoal que estava trazendo a bagagem e eles disseram que não tinha nenhuma bicicleta. Que ótimo, deixaram minha bike para trás, imediatamente fui ao escritório da empresa reclamar, e depois de muita briga eles encontraram ela em outra cidade e disseram que ela ia chegar entre uma ou duas horas a mais. Resolvi esperar no terminal, ia ter que pedalar a noite em Buenos Aires de qualquer jeito, eram apenas 5km do terminal até o albergue, então não haveria problema nisso. Meia-noite, minha bicicleta chegou, felizmente inteira, pedalei até o albergue, e tive que subir mais escadas com ela, tudo bem, eu já estava me acostumando com isso. Cheguei dia 5 de Janeiro em Buenos Aires, o James iria chegar dia 6, e eu iria buscá-lo no aeroporto, mas quando cheguei no albergue recebi um email dele dizendo que o vôo iria atrasar um dia por causa do mal tempo no Canadá. Tudo bem, descansei, fui conhecer algumas partes da cidade, tirar fotos, etc. Dia 7 fui buscar o James, estranhei um pouco, pois ele foi o último a sair, nos encontramos, etc, etc, e ele me disse que a bicicleta dele não veio, que a Air Canadá tinha extraviado a magrela, e eu que estava quase louco pois minha bike tinha ficado uns 150km atrás, a dele ninguém sabia onde estava, conversamos com várias pessoas e fomos para o albergue, e depois eles dariam uma resposta mais consistente.
    Horas depois ficamos sabendo que a bicicleta do James tinha ido para Tóquio, ninguém sabe como, e em dois dias eles ia mandar de volta para Buenos Aires. Então aproveitamos esses dias para conhecer melhor Buenos Aires, vimos o túmulo onde Evita foi sepultada, vimos Tango, conhecemos alguns bairros,e muitos outros lugares.
Aqui vai um texto do James para vocês:

     "This trip has started out a little rough.  First I had my flight cancelled and rebooked for the next day with a 15 hr lay over in Toronto.  Nothing like spending your holidays in an airport.  I finnally arrived in Argintina and meet my good freind Ronaldo at the airport.  All my luggage arrived except of course as usual my bicycle.  They say the bike is in Tokyo, but I am not yet convinced they have a clue were my bike is.  Have been wondering arround the city for the last two days.  The traffic is incredible.  Cars everywere.  Hopefully the bike will arrive tomorrow and we can then make our way out to the country and head to Santa Rosa.  Saw Tango dancing today and found a fabulous icecream store.  Port Icecream, uhmm."

    "Esta viagem começou um pouco problemática. Primeiro meu vôo foi cancelado e reagendado para o próximo dia e tive que esperar 15hs em Toronto. Nada como passar suas férias em um aeroporto. Eu finalmente cheguei na Argentina e encontrei meu bom amigo Ronaldo no aeroporto. Toda minha bagagem chegou exceto claro como de costume, minha bicicleta. Eles disseram que a bike está em Tóquio, mas eu ainda não estou convencido que eles realmente saibam onde minha bike está. Estivemos passeando pela cidade nos dois últimos dias. O tráfico é inacreditável. Carros em todo lugar. Espero que a bike chegue amanha e assim podemos continuar nosso caminho para o interior com destino a Santa Rosa. Hoje vimos Tango, e encontramos uma sorveteria fabulosa. Sorvete do Porto, uhmm."

Pedala Robinho

    Depois de um bom tempo de sedentarismo e boa vida em Buenos Aires, a bicicleta do James chegou e no dia seguinte seguimos viagem com destino a La Pampa, um estado quase desértico, e que as rodovias supostamente eram todas planas. Pedalamos o dia todo e chegamos a noite em uma cidade chamada Chivilcoy, nessa brincadeira meu joelho começou a doer muito, muito mesmo e eu estava me sentindo muito cansado, foram quase 170km em um dia. No outro dia eu não estava aguentando pedalar de dor no meu joelho esquerdo, a rodovia apesar de ser plana, não tinha acostamento e tinha muito tráfico de caminhões e ônibus, ou seja, eu não tinha forca, estava com dor, com tendencia a piorar é claro e a rodovia era extremamente perigosa. Após uns 40km nesse sofrimento, falei para o James que eu não poderia mais pedalar nessa situação, para minha sorte o James é médico, e segundo ele eu teria que trocar os pedais da minha bicicleta por sapatilhas com clip. Entramos na próxima cidade, comprei os novos pedais e a sapatilha, e decidimos pegar um ônibus até Santa Rosa para evitar a impossível rodovia. Chegamos em Santa Rosa a noite debaixo de uma tempestade de vento e chuva, fomos jantar, descansar para continuar no outro dia. O James tinha data para chegar em Bariloche, pois já estava com o vôo marcado para o Canadá, e por isso estávamos pedalando muito forte, pelo menos para mim. No dia seguinte saímos de Santa Rosa com destino a um parque estadual há uns 230km onde poderíamos acampar. A rodovia já não tinha tanto tráfico, mas em compensação não era tao plana como antes, tinha subidas e descidas a todo momento. Paramos em uma cidade para almoçar, e consertar o pneu da câmera da carretinha do James. Quanto a minha bicicleta, ainda estou espantado, sem acreditar, a única coisa que tive que fazer até agora foi trocar os freios, e passar óleo na corrente o que é absolutamente normal, aliás, é impressionante, não tive um furo no pneu, e a bicicleta está inteira, perfeita, não tenho palavras para agradecer o pessoal da Multi-pecas.
    Seguimos viagem, e a estrada parecia nunca acabar, o tal parque parecia cada vez mais longe, isso é claro porque eu estava cada vez mais cansado, meu joelho estava melhorando, mas não estava perfeito ainda, pelo menos eu sabia que as sapatilhas estavam resolvendo.
    Pedalamos a noite durante um bom tempo, a lua era pequena, e o céu era totalmente iluminado pelas estrelas, até que derrepente escuto o James gritando "there is the comet", tinha avistado o cometa, eu pensei que nunca mais iria ver aquele cometa novamente, mas lá estava ele, gigantesco, vi na internet que foi o cometa com mais brilho de todos os tempos, descoberto apenas no fim de 2006, para quem tiver interesse, é só procurar no google por McNaught, ou no site http://www.aerith.net/comet/catalog/2006P1/pictures.html .
    Após 243km de pedal chegamos no parque, até caímos da bicicleta, pois havia lama na entrada do parque, no momento foi chato e estressante, mas agora eu acho que foi muito engraçado Encontramos o lugar para acampar, e segundos depois eu já estava dormindo, banho, só no outro dia, estava exausto.
    No outro dia quando acordei, fui diretamente tomar um banho quente, lavei algumas roupas, conhecemos o parque, e descansamos o suficiente para o próximo dia, que não ia ser muito fácil também.
    Seguimos então nosso caminho por um lugar quase deserto, o parque estava mais de 130km do ultimo vilarejo que passamos, e não havia nada no caminho, depois do parque iriamos encontrar outra vila a mais de 130km também, ou seja, mais de 260km com apenas um parque no meio do caminho, após o próximo vilarejo, seriam mais 180km sem nada na estrada. Para ajudar, o vento estava muito forte, mas infelizmente contra nós, foi difícil chegar em Casa de Piedras, uma vila bem pequena a beira de um rio, mas mesmo assim, depois de 134km, chegamos debaixo de chuva, havia uma casa de informações turísticas, o senhor disse que poderíamos acampar ali mesmo, e assim aconteceu. Eu estou amando essa vida de acampar, fazer comida, etc, nessa situação, os banhos quentes são muito melhores do que na minha casa, e a comida parece ser muito mais saborosa, talvez porque eu precise mais disso do que em casa.
    Nosso próximo destino seria Neuquén, até General Roca a estrada era desértica como previsto, sem água pelo caminho, sem sinal de vida, e ficávamos horas sem ver um carro, era perfeito, com exceção do vento contra, eu sempre via o James na minha frente, eu só conseguia passar ele quando ele parava para me esperar é claro, era impossível ver o final da estrada, em alguns lugares era possível ver quilômetros e quilômetros da rodovia, sem nenhuma árvore, uma paisagem impressionante, já era o fim de La Pampa, e a Patagônia Norte já estava chegando, e eu sabia que em breve a paisagem iria mudar.
    Almoçamos em General Roca, entramos novamente em uma rodovia super perigosa, sem acostamento e com tráfico constante, ninguém respeitava a gente ali, inclusive, um indivíduo, que na hora chinguei muito, atirou água em mim pela janela do carro, depois de duas horas chingando ele, comecei a rir, foi engraçado Havia muitas plantações de maçãs, peras, e pêssegos, eram lindas, e claro não pude resistir e entrei em uma plantação e peguei duas maçãs, deliciosas. Depois de pedalar mais de 150km chegamos em Neuquén no final da tarde, conversamos muito sobre a rodovia e decidimos que se for pra sofrer não vale a pena, muito risco, poluição infernal, etc. Então resolvemos continuar pedalando e ver se o tráfico e a rodovia iria melhorar, no dia seguinte pedalamos uns 25km na mesma situação e com vento contra, conhecemos uns artesoes que estavam esperando carona para Bariloche, quem sabe talvez a gente se encontraria novamente lá, e após isso decidimos voltar os 25km e pegar um ônibus para Bariloche, ia ser impossível pedalar mais 400km naquelas condições. O ônibus chegou em Bariloche a tarde, nossas bicicletas foram despachadas como encomendas, pois não cabiam no bagageiro do ônibus, o rapaz da empresa disse que meia hora depois que a gente chegasse em Bariloche, nossas bicicletas já estariam no escritório da empresa de ônibus. Mas, como estamos na Argentina, as coisas não são tao simples assim, esperamos e brigamos até as 21hs para forcar receber as bicicletas no dia seguinte, e isso ainda foi porque pagamos uma taxa a mais pelo transporte das bicicletas, inacreditável.

Bariloche

    Em Bariloche, nos hospedamos em um hotel não muito caro e na mesma noite já fomos procurar alguma coisa para fazer no dia seguinte, como o James adora caiaque, e eu estava louco para entrar em um desses rios com água de degelo das montanhas, decidimos arriscar no caiaque.     Era teoricamente um rafting para um grupo, mas optamos pelo caiaque. A água estava mais ou menos uns 12º C, mas nada que uma roupa de neoprene, uma paisagem maravilhosa, adrenalina, e muita motivação não resolva. Ali estávamos, no Rio Manso, que de manso não tinha nada, a corrente era muito forte devido ao degelo das montanhas, era cristalina, e cortava boa parte da Cordilheira dos Andes. Eu estava quase em transe, descendo de caiaque em um rio na Cordilheira dos Andes, em um momento em que o rio estava mais calmo, fiz questão de sair do caiaque para nadar um pouco, e deixei a água me levar por um bom trecho, um pequeno momento, mas eterno. Não me lembro exatamente em quanto tempo descemos o rio pois perdi a noção de tempo lá, mas sei que fomos almoçar mais ou menos as 15:30hs, churrasco argentino na Cordilheira dos Andes. Voltamos exaustos para o hotel, tínhamos que descansar, pois iriamos fazer mountain bike no dia seguinte.
Mais um texto do James:
 
I am currently in a city called Bariloche in Argintina.  It is stuningly beautiful here.  Much like our own Canadian rockies.  Have been cycling lots.  Done about 1000km and am now taking a bit of a brake.   Went white water kayaking today.  Will show you picture when I get home.  The roads here are a little crazy with no shoulders and lots of big trucks.  I do not know how much longer I can fight against the automobile.  I think they have won the world.  Not only is there no room on theses roads for cyclists but the stench from the exaust and the noise sort of ruins a bit of the fun.  There is virtually no place in this world for those of us who want to get arround exclusively by our own efforts.  I think that I am going to stike to off road cycling after this and might even have to brake down and buy a car to get me to the trail head.
 
Eu estou agora em uma cidade chamada Bariloche na Argentina. É surpreendentemente lindo aqui. Bem parecido com nossas montanhas canadenses. Pedalei muito. Fiz mais ou menos 1000km e agora vou dar um tempo. Hoje fomos praticar "white water kayaking". Vou mandar algumas fotos quando eu chegar em casa. As rodovias são um pouco loucas, sem acostamentos e muitos caminhões Eu não sei por quanto tempo mais poderei lutar contra os automóveis. Penso que eles tomaram o mundo. Não somente por não existir ciclovias nessas estradas mas também a fumaça, os barulhos que acabam com a diversão Não existe mais lugar nesse mundo para aqueles que querem chegar por ai por conta própria. Acho que vou pedalar por alguma estrada off-road depois desta e talvez depois eu tenha que me render e comprar um carro para me locomover.
 
 
    Acordamos no outro dia, compramos um mapa e pedalamos rumo ao Cerro Catedral, se não me engano é uma das montanhas mais altas de Bariloche. O mapa infelizmente era muito ruim, as distancias não eram corretas, tinha algumas coisas incompreendíveis e rotas que supostamente eram para mountain bike, mas na realidade não existiam. Tudo bem, pedalamos naquele dia uns 60km pela cordilheira, sem as mochilas é claro, voltei muito cansado, muito mesmo. Quando chegamos na cidade, em uma feira de artesanato, avistei os amigos que conhecemos na estrada em Neuquén, paramos um pouco para conversar (e descansar) e eles nos convidaram para um almoçar com eles no dia seguinte, um churrasco a beira do lago Nahuel Huapi, procurem no google por Nahuel Huapi em imagens. Descansamos (um pouco) e até que enfim pude acordar um pouco mais tarde (9:00hs), pedalamos uns 15km para chegar no acampamento, passamos o dia todo relaxando e voltamos para Bariloche.     O James decidiu escalar um montanha aqui, mas como eu estava muito cansado, tirei o dia para por algumas coisas em dia, fazer umas compras, escrever para vocês, etc, etc.
    Ontem (02 de Fevereiro) também descansei e o James também, fomos curtir um pouco o movimento da cidade. Hoje o James foi para Santiago no Chile, vai conhecer a cidade e depois seguir viagem para o Canadá.
    Eu, estou indo para o hotel, guardar as coisas e seguir viagem, pretendo agora pedalar mais por estradas de rípio (terra e pedras) e acampar mais, procurar tranquilidade nas montanhas.

Cordilheira dos Andes

    Essa semana foi boa, a paisagem é simplesmente indescritível e passei por situações interessantes.
    Saí de Bariloche um pouco tarde, pedalei um pouco pelo asfalto com muitos carros, e depois começou o rípio que eu tanto esperava, doce ilusão A terra aqui é muito seca, o rípio é uma estrada de chão pavimentada com pedras de todos os tamanhos, cada vez que um carro passa, a poeira levanta pra valer, sem contar que é preciso muita atenção pois é super fácil escorregar o pneu e cair. E assim aconteceu, escorreguei e caí (risos), na hora não foi muito interessante, machuquei um pouco o braco, mas nada grave, no outro dia já estava pronto para outra. Com o braco machucado, pouca experiencia no rípio e pouco tempo, resolvi pedalar uns 30km naquele dia e procurar um camping fora de Bariloche.     Achei um maravilhoso a beira do Lago Gutierrez,  tomei um banho, comi, cuidei do braco, e no dia seguinte continuei para El Bolsón, a estrada passa por boa parte da Cordilheira dos Andes, é tudo muito lindo, montanhas, rios transparentes, alguns de água potável, muitas subidas, muitas mesmo, pelo menos agora estou fisicamente bem, sem dores, e relativamente forte para isso, e claro que, depois de uma grande subida sempre vem uma grande decida, que são maravilhosos momentos de prazer (risos). E assim foi até El Bolson, subidas e descidas infindáveis, fiz uma parada para comer e no fim da tarde cheguei no albergue (aqui se fala hostel, como no resto do mundo, então daqui para frente vou falar somente hostel), e iria passar a noite ali e continuar no dia seguinte. Tomei meu banho, comi e conheci umas garotas argentinas (Nadia, Cintia, Beth e Paulinha), elas me convenceram a no outro dia acompanhá-las até um refugio, seria uma caminhada de um dia, dormiríamos no refúgio e voltaríamos no outro dia. Ok, estou viajando, e nada melhor do que curtir os lugares, acordamos cedo e fomos para o refúgio que fica no alto de uma montanha da Cordilheira, foram uns 18km de caminhada em lugares que nunca mais esquecerei. Passamos por bosques gigantescos, rios, pontes e claro com o visual das infinitas montanhas dos Andes, ainda por cima eu estava acompanhado de quatro mulheres, o que mais eu poderia querer?     No começo eu não estava entendendo muito o espanhol delas, mais de pois de um dia todo escutando quatro mulheres tagarelando, você passa a entender tudo. Chegamos no refugio no final da tarde com uma pequena garoa, havia um cheiro de lavanda em todo lugar, estranhei, pois eu não entendia como alguem iria colocar aroma de lavanda em um lugar tao grande, até que uma das meninas me mostro as lavandas, sim, eram lavandas naturais e super cheirosas, muito melhor do que a lavanda de banheiro que conheço no Brasil. Momento de paz, cheiro de lavanda, garoa, lugar cinematográfico, etc, etc.. O refugio era um casarão todo feito de madeira de pinhos, não havia energia, a comida era toda feita ali, a água aquecida a lenha e claro o fogão também. Comi ali a melhor pizza de muzarela da minha vida, vendida por metro. Depois ainda saímos a procurar algum lugar para sentar e relaxar, encontramos um abismo onde embaixo corria uma rio de águas cristalinas de degelo das montanhas, em alguns momentos havia uma pequena garoa, e em outros o sol aparecia, do lado havia uma montanha coberta de neve, um momento que por mais que eu tente descrevê-lo, só estando ali para entender.
    Voltamos para o refugio, comemos um pão caseiro com geleia de cerejas (colhidas diretamente do pé), conversamos muitas coisas fúteis, nos divertimos, e fomos descansar. Eu, sortudo, depois de tudo isso ainda dormi com quatro mulheres no meu lado. O dia seguinte, planejamos descer devagar, curtindo mais e tirando mais fotos, paramos em um outro refugio, que ficava a beira do rio (do mesmo do dia anterior) para tomar nosso café da manha, esperamos o pão assar sentados a margem do rio, quanto a paisagem, vou parar de tentar descrever, simplesmente tentem imaginar algo que não se pode imaginar. Continuamos nossa caminhada pelo bosque e mais ou menos as 14 ou 15hs paramos novamente, tomamos um suco de framboesa (claro, natural de framboesas colhidas do pé também) feito pelas pessoas locais dali, e seguimos nosso caminho para o hostel. Passamos quase toda a noite cantando, tocando, conversando, etc... E eu queria seguir viagem, ainda bem que encontrei essas "chicas muy hermosas" que me convenceram a ficar. No outro dia, sofri um pouco com a despedida, tao pouco tempo juntos, mas nos apegamos bastante, mas, como dizem as chicas, "es lo que hay".
    Segui por asfalto alguns quilômetros, lembrando de todas pessoas que encontrei nessa viagem, e dos amigos que fiz, e acreditem, a viagem não é feita somente pelos lugares conhecidos, mas mais importante do que isso, são as pessoas conhecidas e as situações vividas.
Depois do asfalto encontrei o tal do rípio, acabei me acostumando com ele, mas não o suficiente para gostar, nesse dia cantei muito com meu mp3, e junto com isso, havia muita poeira do rípio e o ar seco e frio da Cordilheira, o resultado foi que agora estou roco. A estrada passava por o Parque Nacional Los Alerces, acampei no parque, claro como usual a beira de um lago gelado, mas para minha felicidade nesses campings sempre tem banho quente. Continuei no dia seguinte pelo rípio, sofrendo com a poeira e com as pedras que não me deixavam pedalar a mais de 13km por hora de média, era muito forte, ainda bem que estou descansado. Em compensação, a paisagem continua maravilhosa, montanhas, bosques, lagos, etc, etc. Nesse dia saí bem cedo do camping, pedalei quase o dia todo para depois de uns 65km chegar ao asfalto. Quando encontrei o asfalto, senti um alívio, foi como uma compensação pela luta do dia todo, e depois de uns 15km feliz com o asfalto me aparece uma bifurcação e os dois caminhos eram por rípio, eu ia para Esquel, faltava uns 25km, já eram 18:30hs, mas a estrada para Esquel estava fechada, em manutenção, a outra estrada eu teria que rodar 20km a mais, ou seja, 45km em rípio depois das 18:30hs. Me desculpem quem fechou a estrada, mas decidi ir pela estrada fechada, sem saber o que iria encontrar pela frente. Assim fiz, entrei no rípio novamente, pelo menos agora a estrada era só minha, e não tinha nenhum carro infernal para levantar poeira, a sensação da certeza que eu não iria encontrar ninguém nos próximos 25km era maravilhosa, era uma descida gigante, mais do que as serras que conhecemos do litoral brasileiro, claro eu estava descendo a Cordilheira, de longe eu avistava rios, vales, lagos, montanhas, era tudo lindo. Após uns 9km assim descobri o motivo da estrada estar fechada, estavam asfaltando ela, e os quilômetros seguintes pedalei em um asfalto novo, sem faixas, sem nada, liso, feito somente para mim. Que decisão, eu teria sofrido muito na outra estrada, e nessa eu aproveitei muito. Cheguei em Esquel, fui para o hostel, depois de descansar um pouco, meu banho de lei, liguei para casa para falar com meu irmão Robertt, que era para estar aqui comigo desfrutando de tudo isso, nesse dia chorei de saudade dele, na estrada.
    

Deserto? Humm...


    Bom, agora eu teria que atravessar o tal deserto, encontrei muitas pessoas, muitas mesmo, e todas me disseram que é impossível, e fiquei sabendo uma história que um motoqueiro morreu lá, então fui me informar melhor sobre paradas, onde havia água, etc... No inicio, quando programei a viagem, segundo meu maravilhoso e inútil mapa do Guia 4 Rodas, havia paradas em pelo menos 100km de distância, o que não é verdade. Já descartei esse mapa no começo da viagem, mais precisamente na segunda semana, pois está totalmente errado, sempre que encontro brasileiros, ajudo eles como meu mapa que comprei aqui na Argentina, que é perfeito. Voltando ao assunto da programação da viagem, percebi que as coisas não são bem como eu pensava ser, a menor distancia entre dois pontos incertos (postos de gasolina e estâncias, tipo uma chácara) seria de 270km, e que, era certo que somente a 600km havia alguma coisa, tudo isso no rípio, onde consigo fazer no máximo uma média de 15km por hora dependendo do vento. O vento quanto mais para o sul, mais forte é, e sempre contra, então calculei uma média de 10km por hora, pedalando (sem contar as paradas) 7 horas por dia eu levaria 4 dias para rodar 270km, ou seja, eu teria que levar pelo menos 24 litros de água para os 4 dias e sem banho. Desculpem-me quem tinha muitas espectativas quanto a isso, mas decidi não fazer isso. Não tenho como levar 24 litros de água, seria horrível para mim pedalar 4 dias sem banho, e ainda assim, estaria arriscando, pois esses pontos a cada 270km são incertos. Estou decidido a voltar vivo para casa, inteiro, e cheio de histórias boas para contar.     Amanha vou pegar um ônibus até Calafate, de lá penso em voltar de bicicleta para El Chatén, e depois continuar minha jornada a Ushuaia no fim do mundo.
    Dou meus parabéns aos heróis que morreram por uma grande causa, mas para mim, prefiro viver por causas menores.

Frio


    Depois de 25hs de viagem em ônibus, cheguei em El Calafate. Fui para o albergue descansar para no dia seguinte conhecer o glaciar Perito Moreno.
    Acordei um pouco tarde naquele dia (pois sabem como é, viagem de ônibus é uma coisa muito cansativa, prefiro bicicleta) e peguei o ônibus para o glaciar, eu já tinha pesquisado, e sabia que era algo muito grande, pelas fotos se pode perceber isso, mas quando cheguei lá fiquei assustado, vendo fotos infelizmente não temos como imaginar o tamanho, são blocos de gelo de 60 metros de altura em média, e todo o glaciar tem 14km de extensão, ou seja, 14km de blocos de gelo do tamanho de um prédio de mais ou menos uns 15/18 andares, é uma cidade de gelo, impressionante. Lá obviamente estava muito frio, mas eu já sabia e fui bem prevenido, fiquei um tempo sentado apreciando o glaciar, e pensando na vida, lugares como esse me fazem refletir tudo que fiz e o que estou fazendo na vida. Ouvi um som de flauta doce e violão e fui ver o que era, encontrei um grupo de turistas israelenses tocando, sentei e fiquei escutando eles tocarem, se eu soubesse teria levado minha flauta doce também.
    Eu estava querendo muito ir para El Chatén para conhecer o Pico Fitz Roy, mas eram mais de 200km fora da rota para Ushuaia, eu precisaria mais uma semana para fazer isso, então fui procurar preços e opções para conhecer o Fitz Roy, no mesmo dia liguei para casa e recebi a noticia que tinha passado no vestibular da Unesp, eu tinha feito a prova nos 3 últimos dias antes de partir para minha viagem, e claro fiquei contente por isso, decidi estudar física para futuramente trabalhar com acústica de instrumentos musicais, mas junto com essa boa notícia minha mãe falou que eu teria que voltar pois se eu perder-se aulas no dia 28 e 29 de Fevereiro, eu perderia a matrícula. Bom, depois de saber todas as opções para ir para o Fitz Roy e sabendo que eu não teria mais tempo suficiente, fui para o lago para poder pensar melhor o que fazer, levei minha flauta doce também e passei a tarde lá.
    Era a segunda semana de Fevereiro, e eu teria mais de duas semanas para terminar a viagem, então decidi conhecer o Fitz Roy em dois ou três dias, e continuar, pois faltava pouco (uns 850km) e assim eu teria tempo para chegar em Ushuaia. Quando voltei para o albergue conheci um casal de ingleses que também queriam ir para El Chatén (onde está o Fitz Roy). O que acontece é que para desfrutar bem aquele lugar, você tem que ficar no mínimo dois dias, lá é um parque nacional, então só acampando em lugares sem banheiro ou qualquer outra facilidade, pelo menos tem muita água potável. Os ingleses não tinham barraca, ou qualquer outro equipamento para acampar, eu tinha tudo, mas para só uma pessoa, então eles resolveram alugar a barraca, sacos de dormir, e o resto iríamos usar o meu equipo (fogareiro, panela, etc).
    Eles ainda não tinham conhecido o glaciar e iriam no dia seguinte, eu então tinha mais um dia para descansar, fui conhecer a cidade e fui tocar um pouco de flauta na frente do lago novamente, voltando a cidade encontrei novamente os israelenses que estavam no glaciar tocando, aquele dia eu estava com minha flauta e toquei um pouco com eles, até aprendi algumas musiquinhas de Israel. Eu e os ingleses tínhamos combinado de nos encontrar para comprar e preparar as coisas para nossa aventura. Decidimos ir de ônibus até El Chatén, ficar 3 dias e duas noites lá.
    Chegando em El Chatén, encontramos com outro amigo alemão que estava no albergue também, comemos e começamos a trilha para o primeiro acampamento, nisso eu já tinha avistado o Fitz Roy da estrada, estava muito longe e ainda assim era gigante, eram aproximadamente 20km para chegar até o acampamento, depois de caminhar (subir) 2 horas fizemos uma parada em um lugar que parecia mais o cenário do filme Senhor dos Anéis, era como um vale cercado de montanhas com um rio correndo no meio, nós é claro, estávamos no alto olhando para baixo quando derrepente um Condor passa voando de baixo para cima mais ou menos uns 10 metros de onde estávamos, levamos um susto e até demos alguns passos para trás pois a sensação era como se ele fosse chocar com a gente, chegamos ao acampamento depois de 4 horas de caminhada desde El Chatén, a vista era maravilhosa, armei minha barraca com a porta virada para a montanha, pois já sabia que como estávamos no lado leste da montanha, ao amanhecer a luz do sol na montanha deixaria ela laranja bem escuro, quase um vermelho, fizemos nossa janta, tomamos muito vinho e fomos dormir. No meio da noite eu acordei com vontade de ir ao "banheiro", mas como tava muito frio (aproximadamente 0ºC) eu nem cogitei em colocar minha cabeça para fora do saco de dormir, mas não aguentei e tive que sair, essa é a desvantagem de tomar muito vinho acampando em dias frios, quando olhei para o céu, fiquei paralisado, nunca vi tanta estrela em toda minha vida, e não pensem que foi por falta de oportunidade, gosto muito de contemplar o céu e já vi muita coisa e muito céu desse tipo, mas dessa vez foi demais, no chão eu via minha sombra claramente feita pela luz das estrelas, e olhando a oeste eu via o desenho da montanha como uma silhueta, naquele momento eu só queria minha câmera boa (mas grande e analógica) que tinha deixado em casa, mas fiz o que tinha que fazer, com muito frio fiquei olhando um pouco para o céu e depois entrei para a barraca, valeu a pena ter saído
    Acordo ás 6h da manhã com o Bastien (o alemão) batendo na barraca e chamando para ver a montanha, ele acordou todo mundo, mas no frio, ninguém quer sair da cama, eu fui o último para sair da barraca, o casal de ingleses também reclamaram, mas sabíamos que iríamos ver algo único em nossa vida. Bastien estava todo empolgado perguntando se alguém tinha saído da barraca a noite, antes de eu responder para falar do céu ele começou a contar que nunca tinha visto tanta estrela, então eu percebi que a minha empolgação com o céu não era uma coisa só minha, o céu tava maravilhoso mesmo. Estava muito frio, e decidimos ir até o pé da montanha (1h de caminhada) para ver o sol iluminando ela, eu para esquentar decidir ir correndo, cheguei mais rápido e não senti tanto o frio, o lugar era surrealista, o chão era coberto por blocos de pedra de todos os tamanhos, desde pequenas de 2cm até rochas de 8 metros, a maioria tinha uns 50cm, e correr nessas rochas era algo muito interessante. Ali estávamos, todos empolgados, e realmente foi algo espetacular, não sei quando vou ver algo assim novamente, a montanha parecia ter luz própria, parecia um efeito especial de filme quando alguma pedra acende, ou algo assim. Voltamos para o acampamento, tomamos nosso café da manhã e sem pressa desarmamos acampamento para seguir para o próximo, tínhamos o dia todo para fazer uma trilha de 4 horas, e para ajudar os dias de verão no sul são mais longos, ás 6h o dia já começa a ficar claro e a noite só chega ás 22:30.
    No caminho, encontramos uma florestas de árvores secas, acreditem, quando digo surrealista, é literalmente surrealista, depois de algumas horas, paramos para contemplar mais um vale, mas cada um era diferente do outro, e decidimos parar para almoçar ali. Depois do almoço e de uma boa "siesta" (cochilo), Matt (o inglês) começou a atirar pedras em um toco de madeira que estava uns 100m de distância, todos gostaram da idéia e começamos a brincar, Louise (a namorada do Matt) sugeriu fazer uma competição de quem acertava mais, quem ganhasse iria poder comer mais na janta, e quem perdesse teria que entrar no lago que era um pouco gelado (entre 4 a 6 graus) pois a água era de degelo das montanhas, tinha até uns icebergs no lago. Para não fazer suspense contando toda a competição, já vou pular para o final dizendo que eu perdi, pois é, eu tava f... ferrado, todos riram muito e seguimos nossa trilha até encontrar o tal lago. Pensei até em não entrar, mas depois de perder uma competição super importante dessas, você tem que manter sua honra de alguma outra maneira, Bastien decidiu entrar também. Louise nisso estava filmando tudo, eu tinha mais roupas secas, então deixei tudo no jeito para depois de sair da água não ficar com frio, e para não molhar toda a roupa entrei só com minha calça de ciclismo, pois ela seca muito rápido, quando coloquei os pés dentro da água eu não tinha noção que era tão gelada, para quem nunca teve essa experiência, vou explicar com detalhes o que acontece.     No começo eu senti dor, depois meus pés literalmente adormeceram, eu não sentia mais nada, era como se tivesse aplicado uma anestesia, depois entrei até onde a água batia em minhas pernas, minhas pernas começaram a doer também, olhei para meu pé e vi que tinha pisado em alguma coisa que cortou e estava sangrando, mas pelo menos eu não senti nada, haha, já estava desesperado, começamos a contar para mergulhar no três, mas eu não aguentei e mergulhei um pouco antes, só posso dizer que a água era muito fria, saí correndo da água, corri mais um pouco para me aquecer e fui me enxugar e trocar de roupa, minhas pernas já não doíam mais e só senti o corte que fiz no pé, depois com roupas secas eu estava me sentindo tão bem que acho que nunca me senti tão leve em toda minha vida, o Bastien disse a mesma coisa, acho que foi melhor do que qualquer massagem, ou qualquer outra coisa que supostamente faça a gente se sentir bem, inexplicável.
    Chegamos no acampamento, armamos tudo e fomos ao lago que fica ao pé de outra montanha (Cerro Torre, mais uns 20min de caminhada), comemos umas bolachas ali e voltamos para fazer nossa janta, o acampamento era em um bosque grande e ao lado tinha uma clareira onde fomos ver o céu antes de dormir, estava maravilhoso para variar, vimos um satélite passando, o que é normal eu sei, mas depois a luz dele começou a ficar muito forte como se tivesse aumentando até um ponto que não podíamos olhar pois machucava a vista, e do nada foi voltando ao normal, ficamos todos assustados com isso, pensando em hipóteses, mas na realidade era uma coisa fácil de entender, ainda mais para mim não acredito em nada sobrenatural, bom, de início sabíamos que era um satélite, e realmente era, o que aconteceu foi que nós tivemos a sorte de estar no lugar exato e no momento exato onde ele passou e refletiu a luz do sol sobre nós, ou seja, ele funcionou como um espelho, e realmente foi isso que aconteceu, ele estava no lado leste do céu, como tinha acabado de anoitecer obviamente o sol estava no oeste e então o reflexo.
Não acredito nisso, mas eu realmente estava com muita sorte, tudo em toda minha viagem estava acontecendo ao meu favor, estava dando tudo tão certo que era de se estranhar, também não é para menos, antes de sair todos meus amigos e conhecidos me desejaram boa sorte, hehe.
No dia seguinte acordamos cedo, pois nosso ônibus de volta para El Calafate era ás 13hs, a volta como foi por outro caminho também foi impressionante, lugares inexplicáveis, etc, etc, foi nesse dia que eu vi as lhamas.
    Em El Calafate jantamos juntos no albergue e nos despedimos ali mesmo, pois no outro dia de manhã partiríamos para nossos destinos, eu para Ushuaia e eles para Fóz do Iguaçu.
    

Nunca chega?


    Acordei cedo pois queria pedalar muito, decidi mudar minha rota e pedalar com vento a favor no asfalto, assim sem dúvida eu iria muito mais rápido, faltavam menos de 900km, a estrada era boa, o vento estava e a uns 30km/h me ajudando, fiz 130km nesse dia o que não era muito, mas no dia seguinte fiz uns 170km, meu recorde tinha sido com o James na província La Pampa onde fiz 245km em um dia, acho que eu não iria superar mais esse recorde e nem estava afim, pois assim não se pode curtir muito a viagem, não pode parar para conversar com ninguém, tirar fotos, etc, etc. Mas continuei pedalando bem até onde deu, depois de Rio Gallegos, tive que mudar minha direção, eu estava pedalando de oeste para leste, e agora ia sentido sul, ou seja, com vento lateral que é horrível quando o vento sopra a mais de 30km/h, acreditem, é muito forte mesmo.     Entrei no Chile, fiquei lá apenas dois dias, era tudo muito caro e o serviço horrível, mas valeu a pena, pois lá atravessei o Estreito de Magalhães, foi durante muito tempo (a talvez ainda é) um dos lugares mais difíceis para navegar, nesse caminho todo a paisagem era basicamente a mesma, mas ainda assim bonita, eu sempre via guanacos, mas quando a bicicleta chegava perto eles corriam, pulavam as cercas, etc, era bem interessante.
    Estava na Tierra del Fuego, que para mim deveria se chamar Tierra del Viento, o lugar se chama Tierra del Fuego, pois os navegantes quando descobriram o lugar passavam pelos canais a noite e viam fogueiras que os nativos dali faziam, e então batizaram com esse nome, mas se eles tivessem ido para aquele lugar de bicicleta sem dúvida hoje seria Tierra del Viento.
    Chegando em Río Grande (faltava 230km para Ushuaia) encontrei 3 ciclistas que estavam vindo de Punta Arenas (outro lado), eram dois italianos e um belga, como eles também estavam indo para Ushuaia, decidi ir junto com eles, ficamos em um albergue e no dia seguinte continuamos.     Pedalamos uns 15km de vento contra, quase não saíamos do lugar, demoramos mais de duas horas para rodar esses infelizes 15km até que a rodovia mudou de direção, o belga queria chegar em Ushuaia naquele dia, pois no dia seguinte iria se encontrar com um amigo lá, eu não iria fazer os 230km naquele dia, estava um pouco cansado e já tinha perdido muitos quilômetros em duas horas, foi nesse dia que fiz meu recorde de velocidade, em uma descida com vento a favor cheguei a 72km/h, hehehe, foi muito bom, o belga decidiu continuar sozinho, e eu e os italianos seguimos no nosso ritmo. Paramos para almoçar e quando começamos a pedalar vimos outros dois ciclistas se aproximando, esperamos, e seguimos todos juntos. Era um americano que estava vindo ali do Alasca, o outro era o irmão dele que veio encontrar com ele, e resolveu pedalar de Rio Gallegos até Ushuaia, onde ele iria encontrar com os pais, ele já tinha rodado 12.000km em 10 meses. Paramos em uma vilinha chamada Tolhuin, um lugar bem frequentado por turistas e bem caro também. Faltava apenas 110km para chegar na última cidade da América do Sul, eu já estava me sentindo no fim da viagem, não sabia se estava feliz por conseguir ou triste por saber que ia acabar, minha bicicleta já tinha superado os 4000km, sem nenhum furo nos pneus, sem nenhum problema, só o desgaste normal de freios, cabos, etc.
    Último dia de pedal, acordamos com chuva, as bicicletas tinham dormir na chuva, tomamos um café da manhã e seguimos assim mesmo, foi uma manhã de subida, frio e chuva, era muito bonito, a chuva já não me atrapalhava mais, eu curtia muito. O Jeff irmão do cara que veio do Alasca, tinha comprado uma bike muito barata para pedalar esses 500km, quase que ela não aquenta, isso porque era quase tudo asfalto, a bicicleta estava com o pé de vela quebrado e toda hora a gente tinha que parar para colocar ele no lugar, batendo com uma pedra, fiz até um video disso.
    A tarde a chuva parou, ainda pegamos algumas subidas mas depois a maioria do caminho era descida, estávamos todos empolgados, a viagem acabando, eu comecei a lembrar de todos lugares que passei, de todas situações que vivi e de todas pessoas que conheci, nunca vou esquecer, e espero que alguns amigos que fiz, sejam meus amigos para sempre.
    Nas descidas a gente ia brincando, cantando, a sensação de felicidade era tão grande que um olhava para a cara do outro e começava a rir do nada, gargalhadas altas mesmo.
    Eu já tinha esquecido de olhar para o velocímetro e quando menos esperava vimos uma placa bem grande que dizia "Ushuaia - Bienvenidos a la ciudad mas austral del mundo", dia 22 de Fevereiro de 2007, a felicidade tomou conta de todos, fizemos muitas fotos ali e bagunçamos um pouco antes de continuar para o centro da cidade.
    Na hora eu lembrei da propaganda do Estadão, e pensei: E ai? o que eu faço agora? Haha, é tão fácil perceber que eles estavam totalmente errados naquela propaganda, é muito fácil chegar no topo da montanha em 30 segundos de uma propaganda, mas só quem realmente vai, sabe o que vive, quem leu todos meus relatos pode ter uma pequena idéia do que vivi, das coisas que vi e que vou guardar para o resto da minha vida, sou um cara que leio jornais e tento me manter atualizado, o Estadão que me desculpe, mas não nem em anos de jornal uma pessoa pode aprender, evoluir ou conhecer tantas coisas diferentes como em uma viagem desse tipo, só fiz esse comentário sobre a propaganda pois muita gente me perguntava o que eu ia fazer quando chegasse, hehe.
    Fomos nos hospedar, eu fui direto para a compania aérea para reservar meu vôo. Depois ainda tive tempo de dar uma volta na cidade e fui até o último ponto do continente onde tinha uma placa dizendo: "Ushuaia - fin del mundo", eu estava literalmente no fim do mundo com minha bicicleta.
    Fiquei mais uns 6 dias em Ushuaia, curtindo e esperando meu vôo, ainda saí outro dia para pedalar nas montanhas, vi pinguins, leões marinhos, etc. Em um dos dias lá, eu estava em uma sorveteria e vi Matt e Louise passando, corri para a rua, chamei eles e quase não acreditamos, perguntei o que eles estavam fazendo ali, e me disseram que tinham mudado o destino, fomos almoçar juntos e assistir a final do campeonato inglês no albergue onde eles estavam.
    Cheguei em casa dia 2 de Março, e só agora fui saber que eu não tinha que estar obrigatoriamente na faculdade dias 28 e 29 de Fevereiro, mas sim de Março, e aliás, esse ano nem existe 29 de Fevereiro, mas eu nem me toquei na hora.
    Quero agradecer publicamente todos que me apoiaram. Minha mãe, toda a família e amigos, a Multipeças que realmente montou uma bike que superou minhas expectativas, o Prof. Luizão do Projeto Camerata, e a Academia Aerobics.
    Todos me perguntam quando vai ser a próxima viagem, ainda não tenho nada programado, mas essa não vai ser a última.

    Obrigado e um grande abraço a todos que acompanharam a viagem pelo site.


Ronald Moretto

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